Wednesday, April 18, 2007

Que designers queremos ser?

Henrique Cayatte é um dos mais conhecidos e premiados designers portugueses, tendo ganho, no ano passado o Prémio Carreira, atribuído pelo Centro Português de Design. Sendo um dos mais criativos na sua área, Henrique Cayatte foi também responsável pelo primeiro projecto gráfico do diário Público. Um projecto arrojado e que mudou completamente a maneira de apresentar um diário aos seus leitores. Mas o seu percurso é bem mais vasto, como demonstra os cargos que tem desempenhado, casos de comissário e autor do design global para a exposição Uberdade e Cidadania - 100 Anos Portugueses, coordenador do curso de pós-graduaçâo em Design urbano da Faculdade de Belas Artes da universidade de Lisboa e do Centro Português dê Design. e designer da revista EGOÍSTA.

Em entrevista ao Ensino Magazine, aquele responsável que estará presente no 3º Fórum da Imagem da Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, fala da sua experiência, da evolução do design em Portugal e da relação com os responsáveis editoriais da imprensa escrita.

Desde há muitos anos que a noção de design gráfico foi substituída pela de design de comunicação, concorda com a ideia?

Concordo. O design de comunicação passou a integrar o gráfico. A evolução da profissão, das mentalidades e da tecnologia originou esta mutação. O design de comunicação inclui todas as variáveis do design gráfico embora a inversa não seja verdadeira.

O design de comunicação, hoje, recorre imagens fixas e animadas, de duas e três dimensões, som, texto e lettering, montagem sequencial de imagens, composição, cor e forma. Como vemos, um âmbito bastante mais lato que a área de operação do design exclusivamente gráfico.

Em relação aos projectos mais marcantes da sua carreira, o diário Público é um dos que mais vezes é dado como exemplo. Esse foi de facto o seu primeiro grande projecto?

Não. Antes tinha sido responsável, entre 1985 e 88, pelo design da Editorial Caminho onde, fruto das circunstâncias, tive a oportunidade de procurar uma coerência de discurso gráfico entre as diversas colecções que a editora tinha na época. Foi um trabalho muito diversificado, com uma equipa reduzida, que me proporcionou uma relação muito estimulante, com muitas das pessoas que lá trabalhavam e ainda com os autores da casa. Foi ainda muito importante para mim na possibilidade de ilustrar para crianças. Fui colaborador permanente do Expresso e colaborei com outras editoras. O Público terá dado, porventura, mais visibilidade ao meu trabalho e de quem comigo trabalha.

Que aspectos teve em conta para apresentar um design moderno, mas que não chocasse os leitores?

O Público foi um desafio total. Pela complexidade do projecto, pela inovação tecnológica pela dimensão e pela responsabilidade. A grande diferença relativamente a outros projectos, terá sido, independentemente do desenho final, eu ter sido um dos quatro fundadores do jornal e ter, desde o princípio, debatido os seus conteúdos com os jornalistas. Se tivesse sido convidado à posteriori não teria compreendido em toda a sua escala o projecto editorial e jornalístico. O desenho, a inforgrafia e a ilustração na sua relação com a fotografia e o texto foi o resultado de um fantástico trabalho de uma equipa muito motivada. Tudo isto assentes em novas plataformas tecnológicas, não só em Portugal, como no estrangeiro.

As novas tecnologias, de que forma é que revolucionaram o design?

Revolucionam, propõem novos caminhos, criam novas angústias, auxiliam, mas em nenhum caso devem colonizar. Ver o computador num trabalho, na minha opinião, não é interessante. Ter um trabalho que foi mais longe pela presença das novas tecnologias é desafiante. Infelizmente os equívocos são enormes e muitos designers pensam que a falta de ideias ou de talento pode ser substuída pelos softwares. É um preço demasiado caro que, infelizmente, muitos profissionais já pagaram porque não perceberam que cederam ao estéreotipo, ao mainstream acrítico e ao gosto dominante, o que lhes retira personalidade transformando-os em peças de uma engrenagem que deixaram de perceber.

Como é que é feita a relação entre o designer e as restantes editorias dos jornais e até mesmo com os jornalistas?

Com trabalho e reflexão comum. Respeito pelas especificidades próprias de cada uma das áreas e o entendimento que estão todos a trabalhar para o mesmo objectivo que ficará mais rico para quem o produz como para quem o lê se o resultado final recolher o melhor de cada um.

Como deve evoluir um designer no mundo actual, tendo em conta a própria evolução tecnológica?

Numa perspectiva humanista que retenha que somos a medida das coisas e não a máquina. Compreendendo e estudando a evolução das sociedades e das mentalidades, os percursos da comunicação e a importância crescente que os designers têm na construção das mensagens num mundo em que a imagem parece querer sobrepor-se à informação alfanumérica. Interagindo e propondo, que é sempre mais democrático do que impondo.

Os estilos criados pelos designers são também uma questão de moda?

Muitas vezes são. A moda aposta no efémero. Sempre. Com tendência a retomar propostas que já fizeram moda antes só que agora transformadas. Os ciclos de consumo são cada vez mais curtos e a isso obrigam. O designer que quiser trabalhar exclusivamente nessa perspectiva arrisca muito. Muitas vezes demasiado porque corre o sério risco de ficar “colado” a uma dada imagem da qual não conseguirá sair e ter plasticidade para afirmar um discurso que o distinga do colega do lado. Mesmo numa grande empresa, em que existe uma tendência para a expressão individual se esbater, o contributo individual numa proposta de equipa é indispensável.

Hoje as empresas dão mais valor ao trabalho desenvolvido pelos designers, ou ainda consideram que essa é uma vertente menos importante?

Felizmente o quadro está a mudar. Só que lentamente. Demasiado lentamente. Empresários e opinião pública não têm uma preparação específica para compreender e exigir design de qualidade, indispensável num processo de inovação. Não há inovação sem design e não há design sem inovação. Os designers , porque portadores dessa formação, não têm sabido criar pontes que levem a um melhor entendimento da sua profissão.

Que desenvolvimento teve o sector do design em Portugal? têm aparecido novos criadores com valor?

Houve um grande boom. De repente surgem escolas como cogumelos, e demasiados designers para um mercado. O problema é que o tecido empresarial português não tem capacidade de os absorver. Os jovens têm produzido um trabalho de uma qualidade crescente que se afirma em Portugal e lá fora. Quando faz bem, o designer português consegue performances de qualidade equivalente ao que de melhor se projecta no estrangeiro. É importante que a indústria acompanhe, compreenda e invista.

Entrevista retirada da Ensino Magazine Online

0 comments: